A esquerda abandonou o discurso contra a corrupção?

19 de junho de 2018

Foi in­tenso o de­bate, nos úl­timos dias, sobre a pauta an­ti­cor­rupção pos­sível para a es­querda. A de­fesa das ga­ran­tias cons­ti­tu­ci­o­nais é uma agenda tra­di­ci­onal do campo e me­didas de com­bate à cor­rupção que as sus­pendam serão sempre en­ca­radas com des­con­fi­ança. Por outro lado, é incô­modo que a es­querda per­ma­neça na de­fen­siva nesse tema, le­van­tando a ban­deira da lei que – con­ve­nhamos – é uma pauta re­cuada.

Pre­ci­samos de um dis­curso ofen­sivo que con­siga tratar a cor­rupção como parte de um pro­blema po­lí­tico maior, que não diz res­peito so­mente ao sis­tema po­lí­tico, mas à questão dos pri­vi­lé­gios. Cor­rupção é um sin­toma da con­cen­tração de poder e com­bater os me­ca­nismos que a tornam pos­sível pa­rece uma das pró­prias ra­zões de existir da es­querda.

Um dis­curso po­lí­tico contra a cor­rupção – não jus­ti­ceiro, mas também não apenas ga­ran­tista – de­pende de nossa ca­pa­ci­dade para focar no com­bate à con­cen­tração de poder e aos pri­vi­lé­gios.

Es­tamos em pleno re­tro­cesso na pauta fun­da­mental dos trans­portes pú­blicos, com re­vo­gação de bi­lhete único no RJ e au­mento das pas­sa­gens em SP. Quem são os donos das em­presas de ônibus, do metrô e dos trens ur­banos? Que dis­po­si­tivos per­mitem uma tal con­cen­tração de poder? Por que eles não foram en­fren­tados pelos úl­timos go­vernos (parte deles de es­querda)?

Surgem ata­ques de todos os lados contra os fun­ci­o­ná­rios pú­blicos, não só dos go­vernos, mas também de grande parte da opi­nião pú­blica. Que pri­vi­lé­gios existem re­al­mente que en­fra­quecem qual­quer de­fesa em bloco do fun­ci­o­na­lismo pú­blico? Que dis­tor­ções sa­la­riais e re­ga­lias no exe­cu­tivo, no le­gis­la­tivo e no ju­di­ciário acabam dando mu­nição para re­ti­radas de di­reitos uni­ver­sais du­ra­mente con­quis­tados? Por que esses pri­vi­lé­gios também não foram en­fren­tados nos úl­timos anos?

Di­reito, quando não é de todos, é pri­vi­légio. Não en­xergar isso levou grande parte da es­querda (nesse caso, a que es­tava fora do go­verno) a co­meter equí­vocos graves, como ter sido contra as cotas nas uni­ver­si­dades. A fi­xação no uni­ver­sa­lismo torna as pautas da es­querda abs­tratas e pouco con­vin­centes para uma opi­nião pú­blica sen­sível ao tema dos pri­vi­lé­gios, tema do qual a cor­rupção é apenas uma das faces, jus­ta­mente aquela que vem sendo en­cam­pada pela di­reita.

Para re­cu­perar sua cre­di­bi­li­dade com a so­ci­e­dade, a es­querda pre­cisa de um dis­curso qua­li­fi­cado de com­bate à cor­rupção. Sem cair nos ar­roubos da di­reita, mas também sem ficar apenas na de­fen­siva. Para isso, pre­cisa en­carar o tema dos pri­vi­lé­gios e da con­cen­tração de poder, que não tem sido abor­dado de modo con­vin­cente. De­pois de tantos anos de go­verno, de­ve­ríamos ter muito mais a exibir nessa di­reção. Não sur­pre­ende, por­tanto, que a ban­deira tenho sido per­dida para a di­reita.

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Ta­tiana Roque é pro­fes­sora da UFRJ e pre­si­dente da Adufrj-SSind (Sin­di­cato dos Do­centes da UFRJ).